Enfrentando o desafio de intervir em um edifício Niemeyer em São Paulo

Fonte: FRAME Web

Texto: Rab Messina

Fotos: Mariana Orsi e Felipe Protti

Mais imagens: Restaurante Vista

SÃO PAULO - Pense neste cenário: como uma empresa de design você é solicitado a intervir em um espaço no telhado com tetos baixos e transformá-lo em um restaurante.

O problema? É um edifício de Oscar Niemeyer dos anos 50 em São Paulo, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Brasil que proíbe qualquer mudança estrutural - não importa que o próprio Niemeyer nunca pretendeu que o espaço verticalmente apertado tivesse qualquer uso comercial. O layout foi inicialmente implacável.

Mas a Prototyp& foi mais do que o desafio: a equipe conseguiu brincar com as limitações e criar um ambiente generoso, cheio de luz que agora abriga o Restaurante Vista, apropriadamente chamado.

O primeiro obstáculo era, ironicamente, a própria fachada: os projetistas estavam presos à construção original; isso significava que eles não poderiam adicionar soluções estruturais para questões funcionais. Por exemplo: o cliente solicitou uma pequena cobertura ao redor do prédio, para proteger os clientes da chuva, mas foi rejeitada, pois alteraria os visuais da fachada.

Então, em vez disso, decidiram mostrar para Niemeyer as coisas que são de Niemeyer e se concentraram em olhar para dentro: a maioria das soluções funcionais era aplicada em ambientes internos. O exterior veio através de uma série de 10 grandes janelas de vidro, com o bar Obelisco servindo de barreira entre os dois ambientes.

Há outro elemento que une a permeabilidade de fechamento aberto: o cobogó. O humilde bloco de concreto perfurado, nascido na calorosa cidade nordestina de Recife, foi poeticamente utilizado pelo próprio Lúcio Costa e pelo próprio Niemeyer em seus projetos - com mais orgulho, no Pavilhão Brasileiro, na edição de 1939 da Feira Mundial de Nova York. Originalmente um ícone do modernismo local, foi considerado humilde demais nos anos 80 e 90, mas agora está desfrutando de um retorno. O time da Prototyp& concebeu uma parede em cobogó com um design circular que não apenas homenageou o criador do espaço, mas também apresentou sua própria ideia de permeabilidade espacial. "Era importante para nós escolhermos um modelo de cobogó que fosse simples e ainda assim representasse algum tipo de pureza geométrica", explicou o fundador do estúdio, Felipe Protti.

E quanto a essa altura do teto? Eles decidiram remover o forro e expor as vigas, ganhando mais do que alguns centímetros de boas-vindas. Eles construíram o efeito pintando os elementos de concreto recém-visíveis em um tom quase branco, de modo a criar uma ilusão de iluminação. "Mas ainda não sabemos por que os tetos eram tão baixos", refletiu Camila Paulon, da Prototyp&. "Na verdade, vimos alguns outros projetos em que Niemeyer manteve o teto muito mais baixo do que se poderia esperar. Alguns dizem que ele fez isso para tornar a horizontalidade do prédio muito mais evidente ... mas ainda não sabemos se esse foi o caso aqui.

Mistério à parte e problema resolvido, ainda há um desafio permanente para a Vista e seus arredores: o restaurante fica no último andar do local relativamente novo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Embora enfrente diretamente o querido e popular complexo do Parque Ibirapuera, com suas estruturas também concebidas por Niemeyer, o MAC-USP ainda não é tão conhecido pelos moradores - a maioria ainda acha que abriga o ex-ocupante do prédio há cinco anos, o Departamento de Trânsito do Estado (DETRAN). Mas essa nova opção de hospitalidade, liderada pelo premiado chef Marcelo Corrêa Bastos, pode mudar isso: talvez, por oferecer uma das vistas mais privilegiadas do famoso horizonte da cidade infinita do Brasil dentro de um ambiente certamente agradável, os paulistanos podem vir pelo o panorama e pela decoração modernista, mas fiquem por conta das Tarsilas e dos Picassos.

Localização Av. Pedro Alvares Cabral 1301, São Paulo